GENERALIDADES Históricas - Morfológicas

INTRODUÇÃO
Se quisermos estabelecer em que consiste a diferença entre o homem são e o homem doente, devemos, antes de tudo, saber o que significa "estado são", como é feito um organismo e como funciona com perfeita eficiência.
A base da medicina é a anatomia. Graças aos conhecimentos anatômicos é que a medicina ocidental fez maiores progressos do que a medicina de outras civilizações.

ANATOMIA : ramo da Biologia que estuda privativamente, os fenômenos estáticos de arquitetura e da estrutura, dos seres organizados utilizando-se das propriedades características da substância organizada como por exemplo físico-químicas, mecânicas, fisiológicas e embriológicas etc. Mas para tanto é necessário que o anatomista conheça os termos da definição para melhor compreensão desta: "arquitetura" palavra que deriva do grego = a Arché (princípio, norma) e Tectaimô (eu conformo, eu construo), designam anatomicamente o modelo segundo o qual as substâncias se apresentam na organização do ser organizado, como um todo ou simplesmente em um dos seus segmentos. " Estrutura " derivada do latim = Struo, Structum, Struere (arranjar, combinar), denota o modo com os elementos figurados e amorfos se combinam na formação dos tecidos, e no arranjo destes para a construção dos órgãos, na combinação destes para formar os sistemas e, a relação entre estes para a organização do corpo. Várias são as definições designadas para conceituar "Anatomia", entretanto todos conjuntos de conhecimentos que são atribuídos a anatomia provem diretamente do termo: 'Dissecação", palavra de origem grega (ana - tomné = eu corto, sem destruir), representa o método clássico de pesquisa instituído por Herophilo, na Escola de Alexandria.

UM BREVE HISTÓRICO

A Medicina Romana
O receituário primitivo dos romanos fez largo uso de ervas (a medicina era uma verdadeira scientia herbarum) de mistura de inúmeras práticas e fórmulas supersticiosas.
O ensino da Medicina. - Os conhecimentos médicos dos egípcios conservaram, na época romana, seu milenar prestígio. Alexandria era grande centro de medicina e os que lá haviam estudado gozavam de prestígio. Na cidade fundada por Alexandre estudava-se Anatomia por meio de dissecação de cadáveres. Tertuliano e S. Agostinho, apoiados no testemunho de Celso, acusaram a escola de Alexandria de prática de vivisseção em criaturas humanas.
Em Roma, entre os professores de medicina dignos de nota, figura o grego Asclepíades, que fundou, na capital, uma escola de medicina. Asclepíades criticava os que, baseados em Hipócrates, confiavam na "vis medicatrix nature" (força curativa da natureza), e acentuava a necessidade de medidas atuantes para que o processo curativo se desenvolvesse cito, tuto, iucunde (com rapidez, com segurança e favoravelmente). As escolas eram constituídas, primitivamente, pelo mestre, e os discípulos que o cercavam e o acompanhavam nas visitas aos enfermos. Os imperadores foram, cada vez mais, demonstrando interesse pelos ensinos médicos e fizeram construir salas especiais (auditoria).
O conhecimento anatômico do corpo humano data de quinhentos anos antes de Cristo no sul da Itália com Alcméon de Crotona, que realizou dissecações em animais. Pouco tempo depois, um texto clínico da escola hipocrática descobriu a anatomia do ombro conforme havia sido estudada com a dissecação. Aristóteles mencionou as ilustrações anatômicas quando se referiu aos paradigmas, que provavelmente eram figuras baseadas na dissecação animal. No século III A.C., o estudo da anatomia avançou consideravelmente na Alexandria. Muitas descobertas lá realizadas podem ser atribuídas a Herófilo e Erasístrato, os primeiros que realizaram dissecações humanas de modo sistemático. A partir do ano 150 A..C. a dissecação humana foi de novo proibida por razões éticas e religiosas. O conhecimento anatômico sobre o corpo humano continuou no mundo helenístico, porém só se conhecia através das dissecações em animais. No século II D.C., Galeno dissecou quase tudo, macacos e porcos, aplicando depois os resultados obtidos na anatomia humana, quase sempre corretamente; contudo, alguns erros foram inevitáveis devido à impossibilidade de confirmar os achados em cadáveres humanos. Galeno desenvolveu assim mesmo a doutrina da "causa final", um sistema teológico que requeria que todos os achados confirmassem a fisiologia tal e qual ele a compreendia.
Porém não chegaram até nós as ilustrações anatômicas do período clássico, sendo as "séries de cinco figuras" medievais dos ossos, veias, artérias, órgãos internos e nervos são provavelmente cópias de desenhos anteriores. Invariavelmente, as figuras são representadas numa posição semelhante a de uma rã aberta, para demonstrar os diversos sistemas, às vezes, se agrega uma sexta figura que representa uma mulher grávida e órgãos sexuais masculinos ou femininos. Nos antigos baixos-relevos, camafeus e bronzes aparecem muitas vezes representações de esqueletos e corpos encolhidos cobertos com a pele (chamados lêmures), de caráter mágico ou simbólico mais que esquemático e sem finalidade didática alguma.
Parece que o estudo da anatomia humana recomeçou mais por razões práticas que intelectuais. A guerra não era um assunto local e se fez necessário dispor de meios para repatriar os corpos dos mortos em combate. O embalsamento era suficiente para trajetos curtos, mas as distâncias maiores como as Cruzadas introduziram a prática de "cocção dos ossos". A bula pontifica De sepulturis de Bonifácio VIII (1300), que alguns historiadores acreditaram equivocadamente proibir a dissecção humana, tentava abolir esta prática. O motivo mais importante para a dissecação humana, foi o desejo de saber a causa da morte por razões essencialmente médico-legais, de averiguar o que havia matado uma pessoa importante ou elucidar a natureza da peste ou outra enfermidade infecciosa.
O verbo "dissecar" era usado também para descrever a operação cesariana cada vez mais freqüente. A tradição manuscrita do período medieval não se baseou no mundo natural. As ilustrações anteriores eram aceitas e copiadas. Em geral, a capacidade dos escritores era limitada e ao examinar a realidade natural, introduziram pelo menos alguns erros, tanto de conceito como de técnica. As coisas "eram vistas" tal qual os antigos e as ilustrações realistas eram consideradas como um curto-circuito do próprio método de estudo.
A anatomia não era uma disciplina independente, mas um auxiliar da cirurgia, que nessa época era relativamente grosseira e reunia sobre todo conhecer os pontos apropriados para a sangria. Durante todo o tempo que a anatomia ostentou essa qualidade oposta à prática, as figuras não-realistas e esquemáticas foram suficientes.
O primeiro livro ilustrado com imagens impressas mais do que pintadas foi a obra de Ulrich Boner Der Edelstein. Foi publicada por Albrecht Plister em Banberg depois de 1460 e suas ilustrações foram algo mais que decorações vulgares. Em 1475, Konrad Megenberg publicou seu Buch der Natur, que incluía várias gravuras em madeira representando peixes, pássaros e outros animais, assim como plantas diversas. Essas figuras, igual a muitas outras pertencentes a livros sobre a natureza e enciclopédias desse período, estão dentro da tradição manuscrita e são dificilmente identificáveis.
Dentre os muitos fatores que contribuíram para o desenvolvimento da técnica ilustrativa no começo do século XVI, dois ocuparam lugar destacado: o primeiro foi o final da tradição manuscrita consistente em copiar os antigos desenhos e a conversão da natureza em modelo primário. Chegou-se ao convencimento de que o mais apropriado para o homem era o mundo natural e não a posteridade. O escolasticismo de São Tomás de Aquino havia preparado inadvertidamente o caminho através da separação entre o mundo natural e o sobrenatural, prevalecendo a teologia sobre a ciência natural. O segundo fator que influiu no desenvolvimento da ilustração científica para o ensino foi a lenta instauração de melhores técnicas. No começo os editores, com um critério puramente quantitativo, pensaram que com a imprensa poderiam fazer grande quantidade de reproduções de modo fácil e barato. Só mais tarde reconheceram a importância que cada ilustração fosse idêntica ao original. A capacidade para repetir exatamente reproduções pictóricas, daquilo que se observava, constituiu a característica distinta de várias disciplinas científicas, que descartaram seu apoio anterior à tradição e aceitação de uma metodologia, que foi descritiva no princípio e experimental mais tarde.
As primeiras ilustrações anatômicas impressas baseiam-se na tradição manuscrita medieval. O Fasciculus medicinae era uma coleção de textos de autores contemporâneos destinada aos médicos práticos, que alcançou muitas edições. Na primeira (1491) utilizou-se a xilografia pela primeira vez, para figuras anatômicas. As ilustrações representam corpos humanos mostrando os pontos de sangria, e linhas que unem a figura às explicações impressas nas margens. As dissecações foram desenhadas de uma forma primitiva e pouco realista.
Na Segunda edição (1493), as posições das figuras são mais naturais. Os textos de Hieronymous Brunschwig (cerca de 1450-1512) continuaram utilizando ilustrações descritivas. O capítulo final de uma obra de Johannes Peyligk (1474-1522) consiste numa breve anatomia do corpo humano como um todo, mas as onze gravuras de madeira que inclui são algo mais que representações esquemáticas posteriores dos árabes. Na Margarita philosophica de George Reisch (1467-1525), que é uma enciclopédia de todas as ciências, forma colocadas algumas inovações nas tradicionais gravuras em madeira e as vísceras abdominais são representadas de modo realista.
Além desses textos anatômicos destinados especificamente aos estudantes de medicina e aos médicos, foram impressas muitas outras páginas com figuras anatômicas, intituladas não em latim (como todas as obras para médicos), mas sim em várias línguas vulgares. Houve um grande interesse, por exemplo, na concepção e na formação do feto humano. O uso freqüente da frase "conhece-te a ti mesmo" fala da orientação filosófica e essencialmente não médica. A "Dança da Morte" chegou a ser um tema muito popular, sobretudo nos países de língua germânica, após a Peste Negra e surpreendentemente, as representações dos esqueletos e da anatomia humana dos artistas que as desenharam são melhores que as dos anatomistas.
Os artistas renascentistas do século XV se interessavam cada vez mais pelas formas humanas, e o estudo da anatomia fez parte necessária da formação dos artistas jovens, sobretudo no norte da Itália.
Leonardo da Vinci (1452-1519) foi o primeiro artista que considerou a anatomia além do ponto de vista meramente pictórico. Fez preparações que logo desenhou, das quais são conservadas mais de 750, e representam o esqueleto, os músculos, os nervos e os vasos. As ilustrações foram completadas muitas vezes com anotações do tipo fisiológico. A precisão de Leonardo é maior que a de Vesalio e sua beleza artística permanece inalterada. Sua valorização correta da curvatura da coluna vertebral ficou esquecida durante mais de cem anos. Representou corretamente a posição do fetus in utero e foi o primeiro a assinalar algumas estruturas anatômicas conhecidas. Só uns poucos contemporâneos viram seus folhetos que, sem dúvida, não foram publicados até o final do século passado.
Michelangelo Buonarotti (1475-1564) passou pelo menos vinte anos adquirindo conhecimentos anatômicos através das dissecações que praticava pessoalmente, sobretudo no convento de Santo Espírito de Florença. Posteriormente expôs a evolução a que esteve sujeito, ao considerar a anatomia pouco útil para o artista até pensar que encerrava um interesse por si mesma, ainda que sempre subordinada à arte.
Albrecht Dürer (1471-1528) escreveu obras de matemática, destilação, hidráulica e anatomia. Seu tratado sobre as proporções do corpo humano foi publicado após sua morte. Sua preocupação pela anatomia humana era inteiramente estética, derivando em último extremo um interesse pelos cânones clássicos, através dos quais podia adquirir-se a beleza.
Com a importante exceção de Leonardo, cujos desenhos não estiveram ao alcance dos anatomistas do século XVII, o artista do Renascimento era anatomista só de maneira secundária. Ainda foram feitas importantes contribuições na representação realista da forma humana (como o uso da perspectiva e do sombreado para sugerir profundidade e tridimensionalidade), e os verdadeiros avanços científicos exigiam a colaboração de anatomistas profissionais e de artistas. Quando os anatomistas puderam representar de modo realista os conhecimentos anatômicos corretos, se iniciou em toda Europa um período de intensa investigação, sobretudo no norte da Itália e no sul da Alemanha. O melhor representante deste grupo é Jacob Berengario da Capri (+1530), autor dos Commentaria super anatomica mundini (1521), que contém as primeiras ilustrações anatômicas tomadas do natural. Em 1536, Cratander publicou em Basiléia uma edição das obras de Galeno, que incluía figuras, especialmente de osteologia, feitas de um modo muito realista. A partir de uma data tão cedo como 1532, Charles Estienne preparou em Paris uma obra em que ressaltava a completa representação pictórica do corpo humano.
VESÁLIO
Uma das primeiras e mais acertada solução para uma reprodução perfeita das representações gráficas foi encontrada nas ilustrações publicadas nos tratados anatômicos de Andrés Vesálio (1514-1564), que culminou com seu De humanis corpori, fabricada em 1453, um dos livros mais importantes da história do homem.
Vesálio nasceu em Bruxelas, em 1514, no seio de uma família muito relacionada com a casa de Borgonha e a corte do Imperador da Alemanha. Sua primeira formação médica foi na Universidade de Paris (onde esteve com mestres como Jacques du Bois e Guinter de Andernach), e foi interrompida pela guerra entre França e o Sacro Império Romano. Vesálio completou seus estudos na renomada escola médica de Pádua, no norte da Itália. Após seu término, começou a estudar cirurgia e anatomia. Após alguns trabalhos preliminares, em 1543, com a idade de 28 anos, publicou seu opus magnun, que revolucionou não só a anatomia como também o ensino científico em geral. As ilustrações da Fabrica destacam-se precisamente pela sua estreita relação com o texto, já que ajudam no entendimento do que este expressa com dificuldade. Supera a pauta expositiva usada por Mondino, e cada um dos sistemas principais (ossos, músculos, vasos sangüíneos, nervos e órgãos internos) é representado e estudado separadamente. As partes de cada sistema orgânico são expostas tanto em conjunto como individualmente e mesmo assim são consideradas todas as relações entre essas estruturas. Vesálio comprovou também que não são iguais em todos os indivíduos. Relatou sua surpresa ao encontrar inúmeros erros nas obras de Galeno, e temos que ressaltar a importância de sua negativa em aceitar algo só por tê-lo encontrado nos escritos do grande médico grego. Sem dúvida, apesar de ter desmentido a existência dos orifícios que Galeno afirmava existir comunicando as cavidades cardíacas, foi de todas as maneiras um seguidor da fisiologia galênica. Foram engrandecidas as diferenças que separavam seu conhecimento anatômico do de Galeno, começando pelo próprio Vesálio. Talvez pensasse que uma polêmica era um modo de chamar atenção. Manteve depois uma disputa acirrada com seu mestre Jacques du Bois (ou Sylvius, na forma latina), que foi um convencido galenista cuja única resposta, ante as diferenças entre algumas estruturas tal como eram vistas por Vesálio e como as havia descrito Galeno, foi que a humanidade devia tê-lo mudado durante esses dois séculos. Vesálio tinha atribuído o traçado das primeiras figuras a um certo Fleming, mas na Fabrica não confiou em ninguém, e a identidade do artista ou artistas que colaboraram na sua obra tem sido objeto de grande controvérsia, que se acentuou ante a questão de quem é mais importante, se o artista ou o anatomista. Essa última foi uma discussão não pertinente, já que é óbvio que as ilustrações são importantes precisamente porque juntam uma combinação de arte e ciência, uma colaboração entre o artista e o anatomista. As figuras da Fabrica implicam em tantos conhecimentos anatômicos que forçosamente Vesálio devia participar na preparação dos desenhos, ainda que o grau de refinamento e do conhecimento de técnicas novas de desenho, também para os artistas do Renascimento, excluem também que fora o único responsável. Até hoje é discutido se Jan Stephan van Calcar (1499-1456/50), que fez as primeiras figuras e trabalhou no estúdio de Ticiano na vizinha Veneza, era o artista. De qualquer maneira, havia-se encontrado uma solução na busca de uma expressão pictórica adequada aos fenômenos naturais.
No século XVII foram efetuadas notáveis descobertas no campo da anatomia e da fisiologia humana. Francis Glisson (1597-1677) descreveu em detalhes o fígado, o estômago e o intestino. Apesar de seus pontos de vista sobre a biologia serem basicamente aristotélicos, teve também concepções modernas, como a que se refere aos impulsos nervosos responsáveis pelo esvaziamento da vesícula biliar.
Thomas Wharton (1614-1673) deu um grande passo ao ultrapassar a velha e comum idéia de que o cérebro era uma glândula que secretava muco (sem dúvida, continuou acreditando que as lágrimas se originavam ali). Wharton descreveu as características diferenciais das glândulas digestivas, linfáticas e sexuais. O conduto de evacuação da glândula salivar submandibular conhece-se como conduto de Wharton. Uma importante contribuição foi distinguir entre glândulas de secreção interna (chamadas hoje endócrinas), cujo produto cai no sangue, e as glândulas de secreção externa (exócrinas), que descarregam nas cavidades.
Niels Steenson, em 1611, estabeleceu a diferença entre esse tipo de glândula e os nódulos linfáticos (que recebiam o nome de glândula apesar de não fazer parte do sistema). Considerava que as lágrimas provinham do cérebro. A nova concepção dos sistemas de transporte do organismo que se obteve graças às contribuições de muitos investigadores ajudou a resolver os erros da fisiologia galênica referentes à produção de sangue.
Gasparo Aselli (1581-1626) descobriu que após a ingestão abundante de comida o peritônio e o intestino de um cachorro se cobriam de umas fibras brancas que, ao serem seccionadas, extravasavam um líquido esbranquiçado. Tratava-se dos capilares quilíferos. Até a época de Harvey se pensava que a respiração estimulava o coração para produzir espíritos vitais no ventrículo direito. Harvey, porém, demonstrou que o sangue nos pulmões mudava de venoso para arterial, mas desconhecia as bases desta transformação. A explicação da função respiratória levou muitos anos, mas durante o século XVII foram dados passos importantes para seu esclarecimento.
Robert Hook (1635-1703) demonstrou que um animal podia sobreviver também sem movimento pulmonar se inflássemos ar nos pulmões.
Richard Lower (1631-1691) foi o primeiro a realizar transfusão direta de sangue, demonstrando a diferença de cor entre o sangue arterial e o venoso, a qual se devia ao constato com o ar dos pulmões.
John Mayow (1640-1679) afirmou que a vermelhidão do sangue venoso se devia à extração de alguma substância do ar. Chegou à conclusão de que o processo respiratório não era mais que um intercâmbio de gases do ar e do sangue; este cedia o espírito nitroaéreo e ganhava os vapores produzidos pelo sangue.
Em 1664 Thomas Willis (1621-1675) publicou De Anatomi Cerebri (ilustrado por Christopher Wren e Richard Lower), sem dúvida o compêndio mais detalhado sobre o sistema nervoso. Seus estudos anatômicos ligaram seu nome ao círculo das artérias da base do cérebro, ao décimo primeiro par craniano e também a um determinado tipo de surdez. Contudo, sua obsessão em localizar no nível anatômico os processos mentais o fez chegar a conclusões equívocas; entre elas, que o cérebro controlava os movimentos do coração, pulmões, estômago e intestinos e que o corpo caloso era assunto da imaginação.

O centro principal da cultura científica é Alexandria - como Atenas foi o grande centro da especulação filosófica. Em Alexandria congregavam-se, e daí partiam cientistas de todo o mundo civilizado, atingindo esta cidade seu maior esplendor nos séculos III e II a.C. (Euclides, Arquimedes, Hiparco) e no II século d.C. (Ptolomeu). Em Alexandria havia o famoso Museu, rico de recursos científicos - bibliotecas, observatórios, gabinetes, jardins botânicos, jardins zoológicos, salas anatômicas, etc. - e que teve uma longa e gloriosa vida desde o III século a.C. até o IV século d.C.
As ciências naturais propriamente ditas, já cultivadas por Aristóteles (zoologia) e Teofrasto (botânica), tiveram incremento na idade helenista. Primeiro, por meio das expedições militares de Alexandre, as quais levaram ao conhecimento da flora e da fauna das regiões novas, depois pelas grandes coleções do Museu de Alexandria, dotada de jardins botânicos e zoológicos, como acima já dissemos. As ciências naturais progrediram entretanto na idade helenista particularmente como ciências auxiliares da medicina - anatomia e fisiologia - que, por sua vez, nesta época fez grandes progressos.
Ao lado da antiga escola de Hipócrates, a qual explicava o organismo animal mediante a relação dos quatro humores fundamentais e é chamada escola dos dogmáticos, afirmam-se no século III a.C. em Alexandria outras escolas, firmadas em princípios diferentes. Temos, por exemplo, a escola que tenta explicar os fenômenos da vida pelas quatro forças fundamentais; esta escola fez descobertas importantes sobre a circulação do sangue e sobre o sistema nervoso. Mais importante é a escola médica chamada empírica que, em oposição à orientação teórica e especulativa das escolas precedentes, afirma o valor da experiência direta, da observação dos sintomas do mal e do efeito dos remédios. Foi, inversamente, eclético com tendências dogmáticas e hipocráticas Cláudio Galeno (131-210 d.C.), o maior médico da Antigüidade. Natural de Pérgamo, viveu longamente em Roma na qualidade de médico imperial e deixou numerosos escritos, que dominaram a cultura médica européia até além da Idade Média. Tenta ele sintetizar a doutrina hipocrática dos quatro humores com a física aristotélica dos quatro elementos e das quatro qualidades fundamentais da matéria - o calor, o frio, a secura, a umidade. Alicerça a medicina na fisiologia e na anatomia; afirma uma fisiologia teleológica, finalista, para explicar a formação e o funcionamento dos órgãos; reconhece a vis medicatrix como fator essencial da terapia, não podendo o médico fazer outra coisa senão auxiliar esta força medicatrix. Tendo Galeno procurado coligar os fatos particulares observados no mundo biológico aos princípios da física e da metafísica, segue-se que foi também um filósofo. A sua filosofia é uma síntese do platonismo, estoicismo e, sobretudo, aristotelismo.

CAMINHOS DA MEDICINA - A NEUROLOGIA NA ESCOLA DE ALEXANDRIA
No período pós-hipocrático, o centro médico de maior representatividade na história da humanidade foi, sem dúvida, Alexandria. O local da cidade fora escolhido por Alexandre Magno, no braço mais ocidental do delta do rio Nilo, no ano de 323 a.C., no mesmo ano em que o grande conquistador morreu de malária aos 33 anos de idade. Com a morte de Alexandre, o Império por ele constituído foi dividido entre os seus generais, ficando o reino do Egito com Ptolomeu I. A cidade foi construída segundo projeto de um grande arquiteto da época, com ruas bem traçadas, perpendiculares umas às outras, e destinava-se a ser a capital do reino e a receber os restos mortais de Alexandre. Alexandria teve um grande desenvolvimento como centro comercial, político, cultural e científico. Ptolomeu I e seu filho e sucessor, Ptolomeu II, deram grande impulso às ciências, artes e letras, atraindo para Alexandria grandes sábios, filósofos, matemáticos, físicos, médicos, artistas, músicos e poetas. Ptolomeu I fundou o Museu de Alexandria, que representou na civilização helenística, o mesmo papel de uma grande
universidade. Nele havia um observatório astronômico, jardim botânico, jardim zoológico, laboratórios, salas para dissecção, salões de leitura e uma grande biblioteca, a maior já organizada até então, com mais de 500.000 volumes (rolos), abrangendo todo o conhecimento da época. Ali se encontravam cópias de todos os textos escritos pelos filósofos e pelos médicos gregos. Neste ambiente, como não poderia deixar de ser, Alexandria tornou-se um importante centro médico para onde se dirigiam os
que desejavam aprender a arte médica ou nela aperfeiçoar-se. Na escola médica de Alexandria foram realizadas pela primeira vez dissecções públicas de corpos humanos, as quais foram posteriormente proibidas e só foram retomadas mil anos depois. Dentre todos os médicos que ali se destacaram, dois nomes devem ser lembrados por seu desempenho e sua significativa
contribuição ao conhecimento do sistema nervoso. São eles, Heróphilo de Calcedônia (aprox. 300 a.C.) e Erasístrato de Chios (aprox. 290 a.C.). O primeiro deles filiava-se à escola de Cós e dedicou-se principalmente a estudos anatômicos; o segundo era discípulo da escola de Cnidos e preocupou-se antes com a função dos órgãos, sendo por isso considerado o pai da fisiologia. Os textos originais de Heróphilo e de Erasístrato se perderam e o que hoje sabemos de suas descobertas se deve
a relatos de outros autores, especialmente de Galeno. Heróphilo, ao contrário de Aristóteles, considerou o cérebro como a sede da inteligência, em lugar do coração. Descreveu a anatomia do cérebro e do cerebelo, os ventrículos, tendo valorizado a importância destas cavidades do interior do cérebro. No assoalho do quarto ventrículo descreveu o que ele comparou com a forma das penas usadas para escrever em Alexandria e que recebeu em latim a denominação de calamus scriptorius. Descreveu as meninges, às quais chamou de chorioid pela semelhança com a membrana que envolve o feto. Deve-se a ele, igualmente, a descrição da rete mirabilis, que teria sido encontrada no cérebro de carneiro. A estrutura do olho tornou-se melhor conhecida após suas dissecções e estudos sobre a anatomia do globo ocular e sua inervação. Reconheceu que eram os nervos e não as artérias que produziam os movimentos voluntários e estabeleceu a diferença entre os nervos motores e sensitivos, embora ainda reinasse certa confusão entre nervos motores e tendões.
Fora do sistema nervoso, a contribuição de Heróphilo para conhecimento da anatomia humana foi considerável, pois, segundo o depoimento de Tertuliano, Heróphilo teria dissecado cerca de 600 corpos.
Erasístrato preocupava-se com as funções dos diferentes órgãos e aparelhos, porém também realizou dissecções e estudos anatômicos. Rejeitava todas as interferências ocultas ou sobrenaturais na gênese das doenças e procurava explicá-las por causas naturais. Não compartilhava da teoria dos quatro humores da escola hipocrática e considerava como elementos
essenciais à vida apenas o sangue e dois tipos de pneuma. Segundo sua teoria, o ar inspirado era levado ao coração, onde se transformava em uma espécie peculiar de pneuma – o espírito vital, o qual era conduzido pelas artérias até ao cérebro onde se transformava em um segundo tipo de pneuma – o espírito animal, que retornava pelos nervos a todo o corpo. Esta teoria foi posteriormente desenvolvida por Galeno. Em relação ao sistema nervoso, comparou o cérebro humano com o dos animais, verificando que a superfície cerebral no homem apresenta maior complexidade e maior número de circunvoluções, o que explicaria a superioridade da inteligência humana sobre a dos animais. Com maior segurança do que Heróphilo, separou os nervos motores dos nervos sensitivos e descreveu o trajeto dos nervos dos órgãos dos sentidos. Tanto Heróphilo quanto Erasístrato foram acusados por Celsus e por Tertuliano de terem praticado a vivissecção em
seres humanos, aproveitando-se de criminosos que haviam sido condenados à morte. Não há comprovação de que tal tenha ocorrido, embora ambos tenham feito vivissecção em animais. Após a queda da dinastia dos Ptolomeus, com Cleópatra, em 30 a.C., e o domínio do Egito pelo Império Romano, o esplendor de Alexandria entrou em lento declínio. No início do século II d.C., quando lá estudou Galeno, ainda era uma grande metrópole, com cerca de 500.000 habitantes. Sua grande biblioteca extinguiu-se consumida pelo fogo no século VII d.C., após a tomada de Alexandria pelos maometanos. O próximo passo no progresso dos conhecimentos neurológicos será dado por Galeno durante o século II d.C.

Fontes bibliográficas
PEREIRA, M.H.R. – Estudos de história clássica. Vol. 1. Cultura grega, 5.ed. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1979
MAJOR, R.H. - A history of medicine. Oxford, Blackwell Scientific Publications, 1954.
LAIGNEL-LAVASTINE (Org.) Histoire de la médecine, de la pharmacie, de l'art dentaire et de l'art vétérinaire. Paris, Albin Michel Ed., 1969.
DOBSON, J.F. – Herophilus de Alexandria. Proc. Royal Soc. Med.. March 18, 1925, p. 19-32.
DOBSON, J.F. – Erasistratus. Proc. Royal Soc. Med. Feb. 16, 1927, p. 825-832. CANFORA, L. A biblioteca desaparecida (trad.). Histórias da biblioteca de Alexandria. São Paulo, Ed. Schwarcz Ltda., 1989
Publicado no Boletim da Academia Brasileira de Neurologia, n. 2/2002
Joffre M. de Rezende
Professor Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás.
Membro das Sociedades Brasileira e Internacional de História da Medicina

UM BREVE RESUMO HISTÓRICO:
280 A .C. : Cérebro

O museu de Alexandria foi o local pioneiro sobre anatomia (Herófilo) e por seu sucessor, Erasístrato. Herófilo dividiu os nervos em sensoriais e motores (movimentos). Descreveu o fígado e o baço corretamente, a retina do olho e o duodeno. Percebeu que as artérias pulsavam e acreditava que transportasse sangue e não ar. Erasístrato percebeu a dstinção entre cérebro e cerebelo; notou que os humanos tinham mais convoluções.
50 D.C. : Farmacologia
O médico greg Pedanius servia aos exércitos romanos e estudou plantas em vasta região do Mediterrâneo. Livro: De Materia Medica descreveu aproximadamente 600 plantas e quase mil drogas.
62 D.C. : Herão , de Alexandria
Ensinou Física na Escola de Alexandria; produziu tratados de mecânica, ótica, pneumática; credita-se a ele a primeira máquina vapor, que produzia movimento circular num globo. Vislumbrou máquinas para abrir e fechar portas e criou um carrosel com carros mecânicos. Suas invencões serviram de entretenimento, mas não produziu máquinas industriais.
O Museu de Alexandria possuía uma ótima escola de Medicina, fundada no século III a.C., por Herófilo, e nessa escola podia-se dissecar cadáveres. Algumas partes do corpo ainda recebem o seu nome: uma cavidade do coração é chamada de “calamus Herophili”. Um de seus seguidores, Erasístrato, foi autor de grande número de livros, que tratavam de anatomia, febres, gota, hidropisia, bem como de higine. Foi o primeiro a elaborar experiências para comprovar o desgaste físico e fazer autópsia para avaliar a causa da morte. Estudou a respiração e separou os nervos sensoriais dos motores e reconheceu a função de bombeamento do coração. 180 A .C.: Galeno (131 a 201 D.C.)
Aos 16 anos resolveu estudar Medicina e compilou muitos livros médicos; visitou inúmeras cidades, inclusive Alexandria, para completar estudos e aos 28 anos voltou para Pérgamo, como médico de gladiadores, onde dissecava animais. Fez um bom trabalho sobre músculos, identificando vários desses grupos. Surgia o primeiro “médico de esportes”; por 4 anos cuidou das cirurgias e aspectos alimentares dos gladiadores. Não concordava com algumas idéias de Aristóteles e Erasístrato (principalmente a que se devia estrangular o animal antes de dissecar, porque as artérias ficavam drenadas de sangue, induzindo erros de interpretação). Publicou mais de 500 tratados sobre Medicina. O primeiro texto em Fisiologia tornou-o uma autoridade e esse texto foi usado por mais de 1.300 anos. Com o surgimento da imprensa sua obra foi editada pela primeira vez em 1473 e por volta de 1.600 ainda existiam 600 cópias. De Motu Musculorum (sobre o movimento dos músculos) mostra sua paixão pelos mecanismos envolvidos no movimento. Descobriu a diferença entre músculos agonistas e antagonistas e entre nervos sensores e motores. Dissecou cães, porcos e macacos e encorajou seus discípulos a viajar até Alexandria, onde existiam esqueletos humanos disponíveis para estudos científicos. Seu principal erro: admitir que a principal função da respiração era resfriar o sangue e o próprio coração.

 

A anestesia

 

A finalidade da anatomia é indagar a estrutura do corpo são e normal. Foi o Renascimento italiano que comprovadamente iniciou o estudo do corpo humano. Na verdade, sob a influência do ideal artístico da Antiguidade greco-romana, nos séculos XV e XVI, começaram a ser estudados os músculos e o esqueleto.
Os maiores estudiosos da época foram Leonardo da Vinci, André Vesálio, os anatomistas da escola de Pádua (Falópio, Fabrizio, Casséiio), de Bolonha (Aranzio, Varólio) e de Roma (Eustáquio).
Da anatomia macroscópica, isto é, a anatomia perceptível a olho nu, passou-se à anatomia microscópica, que estuda a estrutura íntima dos tecidos e que exige o uso do microscópio. O iniciador da anatomia microscópica foi um diletante de Delft (Holanda), Antônio van Leeuwenhoeck, um estranho tipo de apaixonada "natura curiosus" ; mas o primeiro grande representante desta ciência foi Marcelo Malpighi, o descobridor do glomérulo renal, que viveu e ensinou em Bolonha. A anatomia microscópica constitui a histologia, ou ciência dos tecidos, enquanto a anatomia macroscopica constitui aquela que se chama, geralmente, "anatomia" sem outros adjetivos.
O desenvolvimento do organismo antes do nascimento é estudado por uma ciência particular: a embriologia.
A ciência, para adquirir o conhecimento da forma e da estrutura do corpo humano, segue duas vias:
1) A análise, que, por sua vez, se realiza por dois modos distintos: o teórico e o prático. A teoria estuda a estrutura começando do elemento fundamental, a célula, para passar aos tecidos e destes aos órgãos, que descreve sistematicamente, caminhando, portanto, do simples ao complexo, do interno para o externo. A prática, ao contrário, segue o processo inverso, do externo para o interno; ela observa a plástica do corpo para chegar aos constituintes, descendo, pouco a pouco, do geral ao particular .
2) A síntese estuda as diversas partes do corpo, não de acordo com a sua estrutura, mas nas suas relações recíprocas e nas funções que tecidos e órgãos diversos podem realizar em colaboração. Um problema, por exemplo, estudado sinteticamente, é aquele da contração muscular; observar-se-á se um músculo se contrai por si só ou junto com outros músculos e quais são os músculos que determinam o movimento contrário. Todos os músculos têm necessidade de nutrimento e de oxigênio, que são trazidos a eles pelo sangue arterial. O sangue venoso, contrariamente, leva embora dos músculos os produtos de rejeição. Para o seu funcionamento, os músculos devem receber impulsos do sistema nervoso. Nasceu, desse modo, a fisiologia, ciência do funcionamento, indissoluvelmente ligada à anatomia, ciência da forma. Por essa razão a anatomia e a fisiologia serão por nós consideradas paralelamente.
A anatomia está cheia de termos; o nosso corpo é como uma carta geográfica, na qual toda e qualquer parte, por mais pequena que seja, tem a sua denominação. Todo termo tem, geralmente, a necessária justificação. Por exemplo, o "músculo peitoral" é assim chamado porque se acha no peito; o "músculo grande denteado" deve, ao contrário, o nome à sua forma, porque é provido de numerosos dentes; o "músculo adutor" indica, diferentemente, qual é a sua função (aduz, isto é, traz para dentro). É quase impossível conservar de memória todos esses nomes, e mesmo os médicos são obrigados, muitas vezes, a recorrer aos seus livros de anatomia. O importante é poder compreender o corpo humano no seu complexo, que é diverso da simples soma das partes e bem mais vasto do que elas. O homem descrito pela anatomia é uma pura abstração. Todo indivíduo é diferente do outro e constitui um exemplar único.
O homem respira. O ar é absolutamente indispensável para viver. Por meio dos pulmões o oxigênio passa do ar ao sangue e chega aos tecidos nos quais têm lugar as oxidações (combustões): o ar expirado contém anidrido carbônico e va- por de água, substâncias químicas. Eis que vem em nosso auxílio a química, que, em estreita relação com a fisiologia, da qual constitui mesmo, atualmente, o pressuposto fundamental, nos ajudará a conhecer melhor e mais a fundo como funciona o nosso organismo. É a bioquímica, base da moderna fisiologia.
Um outro papel não menos importante cabe à física. Sem o conhecimento das leis físicas relativas à eletricidade, não seria possível a fisiologia do sistema nervoso. O próprio princípio físico da transformação da energia, que seria depois mais claramente estudado na física, foi analisado por um médico, o Doutor Meyer, no longínquo ano de 1840. Teve ele ocasião de observar que, nos climas quentes, o sangue venoso era tão claro que parecia arterial. Desta observação tirou importantes conclusões relativas ao vínculo que liga o calor animal à quantidade de trabalho produzido. Aplicada ao organismo vivo a lei da conservação da energia, a energia recebida em potencial através dos alimentos ingeridos pelo homem é posta em liberdade sob a forma de calor, e graças a reações químicas muito complexas que se dão em nosso organismo.
Uma nova ciência de base é a química-física. Graças a esta ciência compreendeu-se o princípio: "Corpora non agunt nisi soluta", isto é, que os produtos minerais chegam às células do organismo, somente se fizerem parte integrante de combinações orgânicas e sob a forma de sais dissolvidos. A química-física nos ensina, na verdade, que as soluções muito diluídas dissociam-se eletroliticamente, isto é, dividem-se em átomos ou grupo de átomos, os iônios, dotados de carga elétrica positiva ou negativa. Os fenômenos elétricos aparecem, assim, ligados intimamente a toda manifestação vital.
O corpo humano foi muitas vezes comparado a uma máquina. O combustível é trazido a esta e queima produzindo calor. É assim libertada uma força. A fumaça e os resíduos são eliminados. Os alimentos aparecem, portanto, não somente como combustíveis, mas também - e aqui se vê a diferença entre a máquina humana e as máquinas industriais - como substâncias que servem para a formação da materia viva.
A um certo ponto, porém, a explicação científica pára. A ciência não pode ir além de certos limites. Depois de ter alcançado uma determinada profundidade pondo em relação os fenômenos da vida com as leis físicas e químicas, a análise científica esbarra contra barreiras intransponíveis. A ciência pode saber quais as condições necessárias para que o coração bata, pode determinar o ritmo dos batimentos do coração, a força que eles desenvolvem, mas o próprio fato de que o coração bata, de que o músculo se contraia, fogem às explicações mecanicistas.
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CIÊNCIAS MORFOLÓGICAS

Os antigos conheciam perfeitamente a morfologia externa do corpo humano. O primeiro anatomista da Era Cristã conhecido foi um certo Mundino da Milano que, em 1306, seccionou alguns cadáveres humanos e deixou um tratado de anatomia. Em 1376 a Universidade de Montpellier recebia autorização para dissecar o cadáver de um criminoso por ano. Só no século XV (1478 ou 1494) é que teve lugar a primeira dissecação em Paris. A anatomia descritiva já era uma ciência muito avançada, como provam certos desenhos de Leonardo da Vinci.

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A anatomia humana
A anatomia descritiva teve depois um forte impulso na França devido a Jean Gonthier ou Gunther d'Andernach, que foi contemporâneo de André Vesálio, professor de anatomia de Pádua e autor de um famoso tratado de anatomia, ilustrado com magníficos e preciosos desenhos. Vesálio reagiu vigorosamente contra o ensino errôneo da anatomia humana baseada nos trabalhos de Galeno e substituiu-os pela demonstração direta de órgãos e aparelhos tais como eram observados pela dissecação.
Entre os anatomistas célebres do século XVI devem ser recordados: Jacques Dubois, chamado Sylvius, que ensinou no Colégio de França e foi adversário, muitas vezes rude, de Vesálio. Falópio, que ocupou o lugar do mestre de Bruxelas na Universidade de Pádua; o holandês V.Coiter, professor de anatomia em Bolonha; Fabrizio d'Acquapendente, sucessor de Falópio; Miguel Servet que teve a primeira idéia da circulação pulmonar. No século XVII deve-se recordar a descoberta da circulação do sangue, da qual teve a intuição William Harvey em 1619. Três anos mais tarde, Aselli descreveu os vasos linfáticos, dos quais o significado foi explicado com precisão por Jean Pecquet, em 1651.
Nos séculos XVII e XVIII a anatomia fez grandes progressos, graças ao aperfeiçoamento da técnica de investigação. MalPighi utilizou a injeção de líquidos corados, que tornam mais evidente a estrutura dos órgãos. O mesmo anatomista italiano fez descobertas importantíssimas: estudou a estrutura dos pulmões, descobriu os capilares, os lóbulos hepáticos, os glomérulos do rim, aos quais se deu o seu nome (glomérulos de Malpighi). O florentino Bellini escreveu um pequeno tratado sobre a estrutura dos rins e o dedicou a Cosimo de' Medici. Mais tarde apareceram na Itália outros célebres anatomistas entre os quais Santorini, Morgagni e Scarpa.
Na Alemanha, floresceram os estudos anatômicos com Rivinus, que descreveu os canais escretores das glândulas sublinguais; com Brunner, que descreveu no duodeno as glândulas que até hoje têm o seu nome; com Peyer, cujo nome está ligado aos linfáticos intestinais; com Lieberkiihn, que estudou a mucosa intestinal e as suas glândulas tubulares; com Wrisberg que descreveu o ramo sensitivo do nervo facial.
Durante o mesmo período, na França, Drelincourt estudou os órgãos genitais internos da mulher; Vieussens, Verney, Vicq d'Azur, Ferrein, Petit, Portal, Sabatier trazem importantes contribuições ao conhecimento da anatomia humana. Na Dinamarca, Nicola Stenon ocupa-se com o cérebro e as glândulas lacrimais e descobre o canal escretor da parótida. Na Holanda, Frederico Ruysch levou a alto grau de perfeição a técnica das injeções vasculares e da conservação das peças anatômicas. A anatomia humana se aperfeiçoou enormemente nos séculos XIX e XX.

A anatomia microscópica
A invenção do microscópio e as suas primeiras aplicações no estudo dos seres vivos teve lugar no século XVII. É aos Óticos holandeses Hans e Zacharias Janssen que se atribui a invenção do microscópio composto, mas é ao físico inglês Robert Hooke que se deve a primeira observação dos caracteres histológicos, relativamente à estrutura celular da cortiça.
Marcelo Malpighi aplicou o microscópio ao estudo das plantas e constatou que os seus tecidos são formados de pequenas cavidades cheias de líquido (utrículos e vesículas) e das formações vasculares.
De 1673 a 1723 um comerciante de fazendas Leeuwenhoeck, de Delft, examinou ao microscópio uma porção de objetos pertencentes ao reino animal e vegetal, revelando aos olhos dos seus contemporâneos atônitos todo um mundo novo; em 1678 descreveu os espermatozóides de numerosas espécies animais e os glóbulos vermelhos do sangue. Mas o trabalho de Leeuwenhoeck não tem o caráter de uma ciência sistemática; é uma coleção de fatos que acharão lugar na histologia, na bacteriologia, na botânica.
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Marcelo Malpighi (1628- 1694)

 

 

Marcelo Malpighi (1628- 1694),
Gravura de I. Kip (Biblioteca Nacional de Paris)

 

 

A HISTOLOGIA

A histologia nasceu com os primeiros estudiosos que se utilizaram do microscópio: R. Hook, MalPighi, Graw, Ham, Fontana e outros, muito antes que Meyer (1819) desse esse nome à ciência que descreve os tecidos animais e vegetais.
A noção de "tecido" foi, contudo, introduzida por Xavier Bichat sem que este anatomista se tivesse utilizado do microscópio.
A anatomia estuda os tecidos, isto é, as agregações de células que têm a mesma forma e a mesma função.
Os ossos e os músculos, por exemplo, são formados de tantas células análogas que, no seu conjunto, constituem o tecido ósseo e o tecido muscular. No organismo distinguem-se diversos tecidos que têm finalidades diversas:
-tecidos epiteliais, que têm função protetora (pele) ou secretora (glândulas);
-tecidos conjuntivos, que têm por função sustentar o corpo; a estes pertencem o tecido ósseo, o tecido cartilaginoso e os tecidos sem uma forma própria que mantêm unidas entre si as diversas partes de um órgão, constituindo-lhe o arcabouço;
-tecido muscular (músculos);
-tecido nervoso (cérebro, medula espinhal, nervos).
Uma particular especialização da histologia é a citologia, considerada a ciência das células. Estuda ela a célula em si, a qual constitui, em definitivo, a base das ciências biológicas, porque a célula é o elemento fundamental de todos os seres vivos.
Citologia e histologia não estudam somente a estrutura da célula e dos tecidos, mas também as relações entre a estrutura e a função, e, portanto, se integram com a fisiologia, com a física e com a química.

 
 

Antônio van leeuwenhoeck

 

 

Antônio van leeuwenhoeck (1632-1723),
por Jan Verkolje (Leiden)

GENERALIDADES Organização do Corpo Humano
Objetivos do aprendizado
1.Descrever os níveis de organização estrutural que compõe o corpo humano.
2.Explicar brevemente como os sistemas do corpo se relacionam uns com os outros.
3.Definir os processos vitais em humanos.
4.Definir homeostase e descrever sua importância na saúde e na doença.
5.Descrever os muitos planos que passam através do corpo humano e explicar como estas secções são definidas.

Organização do Corpo HumanoVocê está iniciando o estudo do corpo humano e pode aprender como ele é organizado e como funciona. Para entender o que acontece com o corpo quando ele é ferido, está doente ou submetido ao estresse elevado, você deve primeiramente ter um entendimento básico de como o corpo é organizado, de como suas diferentes partes normalmente funcionam e das várias condições que afetarão o seu funcionamento para manter a saúde e a vida.
Você será introduzido aos vários sistemas que compõem o corpo humano. Você também aprenderá como estes sistemas, em geral, cooperam entre si, para manter a saúde do corpo como um todo e como estes sistemas interagem para mantê-lo saudável.

Definição de Anatomia e Fisiologia
Para entender as estruturas e as funções do corpo humano, estudaremos as ciências da anatomia e da fisiologia. A anatomia (anatome = cortar em partes, cortar separando) refere-se ao estudo da estrutura e das relações entre estas estruturas. Afisiologia (physis + lógos + ia) lida com as funções das partes do corpo, isto é, como elas trabalham. A função nunca pode ser separada completamente da estrutura, por isso você aprenderá sobre o corpo humano estudando a anatomia e a fisiologia em conjunto. Você verá como cada estrutura do corpo está designada para desempenhar uma função específica, e como a estrutura de uma parte, muitas vezes, determina sua função. Por exemplo, os pêlos que revestem o nariz filtram o ar que inspiramos. Os ossos do crânio estão unidos firmemente para proteger o encéfalo. Os ossos dos dedos, em contraste, estão unidos mais frouxamente para permitir vários tipos de movimento.

Níveis de Organização Estrutural
Objetivo: Descrever os níveis de organização estrutural que compõem o corpo humano.
O corpo humano consiste de vários níveis de organização estrutural que estão associados entre si. Níveis de Organização
Resposta: Nível orgânico.

O nível químico inclui todas as substâncias químicas necessárias para manter a vida.
As substâncias químicas são constituídas de átomos, a menor unidade de matéria, e alguns deles, como o carbono (C), o hidrogênio (H), o oxigênio (O), o nitrogênio (N), o cálcio (Ca), o potássio (K) e o sódio (Na) são essenciais para a manutenção da vida. Os átomos combinam-se para formar moléculas; dois ou mais átomos unidos. Exemplos familiares de moléculas são as proteínas, os carboidratos, as gorduras e as vitaminas.
As moléculas, por sua vez, combinam-se para formar o próximo nível de organização: o nível celular. As células são as unidades estruturais e funcionais básicas de um organismo. Entre os muitos tipos de células existentes em seu corpo estão as células musculares, nervosas e sangüíneas. A Figura acima mostra quatro tipos diferentes de células de revestimento do estômago. Cada uma tem uma estrutura diferente e cada uma desenvolve uma função diferente.
O terceiro nível de organização é o nível tecidual. Os tecidos são grupos de células semelhantes que, juntas, realizam uma função particular. Os quatro tipos básicos de tecido são tecido epitelial, tecido conjuntivo, tecido muscular e tecido nervoso. As células na Figura acima formam um tecido epitelial que reveste o estômago. Cada célula tem sua função específica na digestão.
Quando diferentes tipos de tecidos estão unidos, eles formam o próximo nível de organização: o nível orgânico. Os Órgãos são compostos de dois ou mais tecidos diferentes, têm funções específicas e geralmente apresentam uma forma reconhecível. Exemplos de órgãos são o coração, o fígado, os pulmões, o cérebro e o estômago. A Figura acima mostra os vários tecidos que constituem o estômago. A túnica serosa é uma camada de tecido conjuntivo e tecido epitelial, estando localizada na superfície externa do estômago, que o protege e reduz o atrito quando o estômago se move e roça em outros órgãos vizinhos. As camadas de tecido muscular do estômago estão localizadas abaixo da túnica serosa e contraem-se para misturar o bolo alimentar e transportá-la para o próximo órgão digestório (intestino delgado). A camada de tecido epitelial que reveste o estômago produz muco, ácido e enzimas que auxiliam na digestão.
O quinto nível de organização é o nível sistêmico. Um sistema consiste de órgãos relacionados que desempenham uma função comum. O sistema digestório, que funciona na digestão e na absorção dos alimentos, é composto pelos seguintes órgãos: boca, glândulas salivares, faringe (garganta), esôfago, estômago, intestino delgado, intestino grosso, fígado, vesícula biliar e pâncreas.
O mais alto nível de organização é o nível de organismo.
Todos os sistemas do corpo funcionando como um todo compõem o organismo - um indivíduo vivo.
 

   

 

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Termos de Direção - Planos e Secções (Cortes)
Posição Anatômica

Na anatomia, existe uma convenção universal de que as descrições do corpo humano assumem que o corpo esteja em uma posição específica, chamada de posição anatômica. Na posição anatômica, o indivíduo está de pé, ereto, de frente para o observador, com os membros superiores (extremidades) posicionados lateralmente, as palmas das mãos voltadas para a frente e os pés apoiados no chão (Figura). Os nomes comuns e os termos anatômicos de várias regiões do corpo são também apresentados na Figura abaixo.

 

Posição Anatômica - Anterior

 

Resposta-O indivíduo de pé, ereto, de frente ao observador, os pés estão apoiados no chão, os membros superiores situados lateralmente com as palmas das mãos voltadas para a frente.
 

 

Posição Anatômica - Posterior

 

 

 

   

 

 
GENERALIDADES HOMEOSTASE : Cavidades do Corpo
 

Regiões e Quadrantes Abdominopélvicos
Cavidades do Corpo

Os espaços dentro do corpo que contêm os órgãos internos são chamados de cavidades do corpo. As cavidades ajudam a proteger, isolar e sustentar os órgãos internos. A Figura abaixo mostra as duas principais cavidades do corpo: dorsal e ventral.

Fig1

 

Cavidades do Corpo

 

Resposta- P, A, T, A, A, T, P, T, A, P, A

A cavidade dorsal do corpo está localizada próxima à superfície posterior ou dorsal do corpo. Ela é composta por uma cavidade craniana, que é formada pelos ossos cranianos e contém o encéfalo e suas membranas (chamadas de meninges), e por um canal vertebral que é formado pelas vértebras (ossos individuais) da coluna vertebral e contém a medula espinhal e suas membranas (também chamadas de meninges), bem como o começo (raízes) dos nervos espinhais.
A cavidade ventral do corpo está localizada na porção anterior ou ventral (frontal) do corpo e contém órgãos coletivamente chamados de vísceras. Como a cavidade dorsal, a cavidade ventral do corpo apresenta duas subdivisões principais - uma porção superior, chamada de cavidade torácica, e uma porção inferior, chamada de cavidade abdominopélvica. O diafragma (diaphragma = partição ou parede), uma camada muscular em forma de domo e importante músculo da respiração, divide a cavidade ventral do corpo em cavidades torácica e abdominopélvica.
A cavidade torácica contém duas cavidades pleurais em torno de cada pulmão, e a cavidade pericárdica (peri = em volta; cardi = coração), espaço em torno do coração (Figura abaixo).

Fig2

 

 


O mediastino (medias = meio; stare = parar, estar), na cavidade torácica, contém uma massa de tecidos entre os pulmões que se estende do osso esterno à coluna vertebral (Figura acima). O mediastino inclui todas as estruturas na cavidade torácica, exceto
os próprios pulmões. Entre as estruturas localizadas no mediastino estão o coração, o timo, o esôfago, a traquéia e muitos grandes vasos sangUíneos, como a aorta.
A cavidade abdominopélvica, como o nome sugere, está dividida em duas porções, embora nenhuma estrutura específica as separem (veja a Figura 2).

A porção superior, a cavidade abdominal, contém o estômago, o baço, o fígado, a vesícula biliar, o pâncreas, o intestino delgado e a maior parte do intestino grosso.
A porção inferior, a cavidade pélvica, contém a bexiga urinária, porções do intestino grosso e os órgãos genitais internos. A cavidade pélvica está localizada entre dois planos imaginários, que estão indicados pelas linhas tracejadas da Figura 1.a.
Um resumo das cavidades do corpo é apresentado no Quadro 1.3, abaixo.

 

Resumo das cavidades do corpo