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INTRODUÇÃO
Se quisermos estabelecer em que consiste a diferença entre o homem são e o
homem doente, devemos, antes de tudo, saber o que significa "estado são",
como é feito um organismo e como funciona com perfeita eficiência.
A base da medicina é a anatomia. Graças aos conhecimentos anatômicos é que a
medicina ocidental fez maiores progressos do que a medicina de outras
civilizações.
ANATOMIA : ramo da Biologia que estuda privativamente, os fenômenos
estáticos de arquitetura e da estrutura, dos seres organizados utilizando-se
das propriedades características da substância organizada como por exemplo
físico-químicas, mecânicas, fisiológicas e embriológicas etc. Mas para tanto
é necessário que o anatomista conheça os termos da definição para melhor
compreensão desta: "arquitetura" palavra que deriva do grego = a Arché (princípio,
norma) e Tectaimô (eu conformo, eu construo), designam anatomicamente o
modelo segundo o qual as substâncias se apresentam na organização do ser
organizado, como um todo ou simplesmente em um dos seus segmentos. "
Estrutura " derivada do latim = Struo, Structum, Struere (arranjar, combinar),
denota o modo com os elementos figurados e amorfos se combinam na formação
dos tecidos, e no arranjo destes para a construção dos órgãos, na combinação
destes para formar os sistemas e, a relação entre estes para a organização
do corpo. Várias são as definições designadas para conceituar "Anatomia",
entretanto todos conjuntos de conhecimentos que são atribuídos a anatomia
provem diretamente do termo: 'Dissecação", palavra de origem grega (ana -
tomné = eu corto, sem destruir), representa o método clássico de pesquisa
instituído por Herophilo, na Escola de Alexandria.
UM BREVE HISTÓRICO
A Medicina Romana
O
receituário primitivo dos romanos fez largo uso de ervas (a medicina era uma
verdadeira scientia herbarum) de mistura de inúmeras práticas e fórmulas
supersticiosas.
O
ensino da Medicina. - Os conhecimentos médicos dos egípcios conservaram, na
época romana, seu milenar prestígio. Alexandria era grande centro de
medicina e os que lá haviam estudado gozavam de prestígio. Na cidade fundada
por Alexandre estudava-se Anatomia por meio de dissecação de cadáveres.
Tertuliano e S. Agostinho, apoiados no testemunho de Celso, acusaram a
escola de Alexandria de prática de vivisseção em criaturas humanas.
Em
Roma, entre os professores de medicina dignos de nota, figura o grego
Asclepíades, que fundou, na capital, uma escola de medicina. Asclepíades
criticava os que, baseados em Hipócrates, confiavam na "vis medicatrix
nature" (força curativa da natureza), e acentuava a necessidade de medidas
atuantes para que o processo curativo se desenvolvesse cito, tuto, iucunde
(com rapidez, com segurança e favoravelmente). As escolas eram constituídas,
primitivamente, pelo mestre, e os discípulos que o cercavam e o acompanhavam
nas visitas aos enfermos. Os imperadores foram, cada vez mais, demonstrando
interesse pelos ensinos médicos e fizeram construir salas especiais
(auditoria).
O
conhecimento anatômico do corpo humano data de quinhentos anos antes de
Cristo no sul da Itália com Alcméon de Crotona, que realizou dissecações em
animais. Pouco tempo depois, um texto clínico da escola hipocrática
descobriu a anatomia do ombro conforme havia sido estudada com a dissecação.
Aristóteles mencionou as ilustrações anatômicas quando se referiu aos
paradigmas, que provavelmente eram figuras baseadas na dissecação animal. No
século III A.C., o estudo da anatomia avançou consideravelmente na
Alexandria. Muitas descobertas lá realizadas podem ser atribuídas a Herófilo
e Erasístrato, os primeiros que realizaram dissecações humanas de modo
sistemático. A partir do ano 150 A..C. a dissecação humana foi de novo
proibida por razões éticas e religiosas. O conhecimento anatômico sobre o
corpo humano continuou no mundo helenístico, porém só se conhecia através
das dissecações em animais. No século II D.C., Galeno dissecou quase tudo,
macacos e porcos, aplicando depois os resultados obtidos na anatomia humana,
quase sempre corretamente; contudo, alguns erros foram inevitáveis devido à
impossibilidade de confirmar os achados em cadáveres humanos. Galeno
desenvolveu assim mesmo a doutrina da "causa final", um sistema teológico
que requeria que todos os achados confirmassem a fisiologia tal e qual ele a
compreendia.
Porém
não chegaram até nós as ilustrações anatômicas do período clássico, sendo as
"séries de cinco figuras" medievais dos ossos, veias, artérias, órgãos
internos e nervos são provavelmente cópias de desenhos anteriores.
Invariavelmente, as figuras são representadas numa posição semelhante a de
uma rã aberta, para demonstrar os diversos sistemas, às vezes, se agrega uma
sexta figura que representa uma mulher grávida e órgãos sexuais masculinos
ou femininos. Nos antigos baixos-relevos, camafeus e bronzes aparecem muitas
vezes representações de esqueletos e corpos encolhidos cobertos com a pele (chamados
lêmures), de caráter mágico ou simbólico mais que esquemático e sem
finalidade didática alguma.
Parece
que o estudo da anatomia humana recomeçou mais por razões práticas que
intelectuais. A guerra não era um assunto local e se fez necessário dispor
de meios para repatriar os corpos dos mortos em combate.
O
embalsamento era suficiente para trajetos curtos, mas as distâncias maiores
como as Cruzadas introduziram a prática de "cocção dos ossos". A bula
pontifica De sepulturis de Bonifácio VIII (1300), que alguns historiadores
acreditaram equivocadamente proibir a dissecção humana, tentava abolir esta
prática. O motivo mais importante para a dissecação humana, foi o desejo de
saber a causa da morte por razões essencialmente médico-legais, de averiguar
o que havia matado uma pessoa importante ou elucidar a natureza da peste ou
outra enfermidade infecciosa.
O
verbo "dissecar" era usado também para descrever a operação cesariana cada
vez mais freqüente. A tradição manuscrita do período medieval não se baseou
no mundo natural. As ilustrações anteriores eram aceitas e copiadas.
Em
geral, a capacidade dos escritores era limitada e ao examinar a realidade
natural, introduziram pelo menos alguns erros, tanto de conceito como de
técnica. As coisas "eram vistas" tal qual os antigos e as ilustrações
realistas eram consideradas como um curto-circuito do próprio método de
estudo.
A
anatomia não era uma disciplina independente, mas um auxiliar da cirurgia,
que nessa época era relativamente grosseira e reunia sobre todo conhecer os
pontos apropriados para a sangria. Durante todo o tempo que a anatomia
ostentou essa qualidade oposta à prática, as figuras não-realistas e
esquemáticas foram suficientes.
O
primeiro livro ilustrado com imagens impressas
mais do que pintadas foi a obra de Ulrich Boner Der Edelstein. Foi publicada
por Albrecht Plister em Banberg depois de 1460 e suas ilustrações foram algo
mais que decorações vulgares. Em 1475, Konrad Megenberg publicou seu Buch
der Natur, que incluía várias gravuras em madeira representando peixes,
pássaros e outros animais, assim como plantas diversas. Essas figuras, igual
a muitas outras pertencentes a livros sobre a natureza e enciclopédias desse
período, estão dentro da tradição manuscrita e são dificilmente
identificáveis.
Dentre
os muitos fatores que contribuíram para o desenvolvimento da técnica
ilustrativa no começo do século XVI, dois ocuparam lugar destacado: o
primeiro foi o final da tradição manuscrita consistente em copiar os antigos
desenhos e a conversão da natureza em modelo primário. Chegou-se ao
convencimento de que o mais apropriado para o homem era o mundo natural e
não a posteridade. O escolasticismo de São Tomás de Aquino havia preparado
inadvertidamente o caminho através da separação entre o mundo natural e o
sobrenatural, prevalecendo a teologia sobre a ciência natural. O segundo
fator que influiu no desenvolvimento da ilustração científica para o ensino
foi a lenta instauração de melhores técnicas. No começo os editores, com um
critério puramente quantitativo, pensaram que com a imprensa poderiam fazer
grande quantidade de reproduções de modo fácil e barato. Só mais tarde
reconheceram a importância que cada ilustração fosse idêntica ao original. A
capacidade para repetir exatamente reproduções pictóricas, daquilo que se
observava, constituiu a característica distinta de várias disciplinas
científicas, que descartaram seu apoio anterior à tradição e aceitação de
uma metodologia, que foi descritiva no princípio e experimental mais tarde.
As
primeiras ilustrações anatômicas impressas baseiam-se na tradição manuscrita
medieval. O Fasciculus medicinae era uma coleção de textos de autores
contemporâneos destinada aos médicos práticos, que alcançou muitas edições.
Na primeira (1491) utilizou-se a xilografia pela primeira vez, para figuras
anatômicas. As ilustrações representam corpos humanos mostrando os pontos de
sangria, e linhas que unem a figura às explicações impressas nas margens. As
dissecações foram desenhadas de uma forma primitiva e pouco realista.
Na
Segunda edição (1493), as posições das figuras são mais naturais. Os textos
de Hieronymous Brunschwig (cerca de 1450-1512) continuaram utilizando
ilustrações descritivas. O capítulo final de uma obra de Johannes Peyligk
(1474-1522) consiste numa breve anatomia do corpo humano como um todo, mas
as onze gravuras de madeira que inclui são algo mais que representações
esquemáticas posteriores dos árabes. Na Margarita philosophica de George
Reisch (1467-1525), que é uma enciclopédia de todas as ciências, forma
colocadas algumas inovações nas tradicionais gravuras em madeira e as
vísceras abdominais são representadas de modo realista.
Além
desses textos anatômicos destinados especificamente aos estudantes de
medicina e aos médicos, foram impressas muitas outras páginas com figuras
anatômicas, intituladas não em latim (como todas as obras para médicos), mas
sim em várias línguas vulgares. Houve um grande interesse, por exemplo, na
concepção e na formação do feto humano. O uso freqüente da frase "conhece-te
a ti mesmo" fala da orientação filosófica e essencialmente não médica. A "Dança
da Morte" chegou a ser um tema muito popular, sobretudo nos países de língua
germânica, após a Peste Negra e surpreendentemente, as representações dos
esqueletos e da anatomia humana dos artistas que as desenharam são melhores
que as dos anatomistas.
Os
artistas renascentistas do século XV se interessavam cada vez mais pelas
formas humanas, e o estudo da anatomia fez parte necessária da formação dos
artistas jovens, sobretudo no norte da Itália.
Leonardo
da Vinci (1452-1519) foi o primeiro artista que considerou a anatomia além
do ponto de vista meramente pictórico. Fez preparações que logo desenhou,
das quais são conservadas mais de 750, e representam o esqueleto, os
músculos, os nervos e os vasos. As ilustrações foram completadas muitas
vezes com anotações do tipo fisiológico. A precisão de Leonardo é maior que
a de Vesalio e sua beleza artística permanece inalterada. Sua valorização
correta da curvatura da coluna vertebral ficou esquecida durante mais de cem
anos. Representou corretamente a posição do fetus in utero e foi o primeiro
a assinalar algumas estruturas anatômicas conhecidas. Só uns poucos
contemporâneos viram seus folhetos que, sem dúvida, não foram publicados até
o final do século passado.
Michelangelo
Buonarotti (1475-1564) passou pelo menos vinte anos adquirindo conhecimentos
anatômicos através das dissecações que praticava pessoalmente, sobretudo no
convento de Santo Espírito de Florença. Posteriormente expôs a evolução a
que esteve sujeito, ao considerar a anatomia pouco útil para o artista até
pensar que encerrava um interesse por si mesma, ainda que sempre subordinada
à arte.
Albrecht
Dürer (1471-1528) escreveu obras de matemática, destilação, hidráulica e
anatomia. Seu tratado sobre as proporções do corpo humano foi publicado após
sua morte. Sua preocupação pela anatomia humana era inteiramente estética,
derivando em último extremo um interesse pelos cânones clássicos, através
dos quais podia adquirir-se a beleza.
Com
a importante exceção de Leonardo, cujos desenhos não estiveram ao alcance
dos anatomistas do século XVII, o artista do Renascimento era anatomista só
de maneira secundária. Ainda foram feitas importantes contribuições na
representação realista da forma humana (como o uso da perspectiva e do
sombreado para sugerir profundidade e tridimensionalidade), e os verdadeiros
avanços científicos exigiam a colaboração de anatomistas profissionais e de
artistas. Quando os anatomistas puderam representar de modo realista os
conhecimentos anatômicos corretos, se iniciou em toda Europa um período de
intensa investigação, sobretudo no norte da Itália e no sul da Alemanha. O
melhor representante deste grupo é Jacob Berengario da Capri (+1530), autor
dos Commentaria super anatomica mundini (1521), que contém as primeiras
ilustrações anatômicas tomadas do natural. Em 1536, Cratander publicou em
Basiléia uma edição das obras de Galeno, que incluía figuras, especialmente
de osteologia, feitas de um modo muito realista. A partir de uma data tão
cedo como 1532, Charles Estienne preparou em Paris uma obra em que
ressaltava a completa representação pictórica do corpo humano.
VESÁLIO
Uma
das primeiras e mais acertada solução para uma reprodução perfeita das
representações gráficas foi encontrada nas ilustrações publicadas nos
tratados anatômicos de Andrés Vesálio (1514-1564), que culminou com seu De
humanis corpori, fabricada em 1453, um dos livros mais importantes da
história do homem.
Vesálio
nasceu em Bruxelas, em 1514, no seio de uma família muito relacionada com a
casa de Borgonha e a corte do Imperador da Alemanha. Sua primeira formação
médica foi na Universidade de Paris (onde esteve com mestres como Jacques du
Bois e Guinter de Andernach), e foi interrompida pela guerra entre França e
o Sacro Império Romano. Vesálio completou seus estudos na renomada escola
médica de Pádua, no norte da Itália. Após seu término, começou a estudar
cirurgia e anatomia. Após alguns trabalhos preliminares, em 1543, com a
idade de 28 anos, publicou seu opus magnun, que revolucionou não só a
anatomia como também o ensino científico em geral. As ilustrações da Fabrica
destacam-se precisamente pela sua estreita relação com o texto, já que
ajudam no entendimento do que este expressa com dificuldade. Supera a pauta
expositiva usada por Mondino, e cada um dos sistemas principais (ossos,
músculos, vasos sangüíneos, nervos e órgãos internos) é representado e
estudado separadamente. As partes de cada sistema orgânico são expostas
tanto em conjunto como individualmente e mesmo assim são consideradas todas
as relações entre essas estruturas. Vesálio comprovou também que não são
iguais em todos os indivíduos. Relatou sua surpresa ao encontrar inúmeros
erros nas obras de Galeno, e temos que ressaltar a importância de sua
negativa em aceitar algo só por tê-lo encontrado nos escritos do grande
médico grego. Sem dúvida, apesar de ter desmentido a existência dos
orifícios que Galeno afirmava existir comunicando as cavidades cardíacas,
foi de todas as maneiras um seguidor da fisiologia galênica. Foram
engrandecidas as diferenças que separavam seu conhecimento anatômico do de
Galeno, começando pelo próprio Vesálio. Talvez pensasse que uma polêmica era
um modo de chamar atenção. Manteve depois uma disputa acirrada com seu
mestre Jacques du Bois (ou Sylvius, na forma latina), que foi um convencido
galenista cuja única resposta, ante as diferenças entre algumas estruturas
tal como eram vistas por Vesálio e como as havia descrito Galeno, foi que a
humanidade devia tê-lo mudado durante esses dois séculos. Vesálio tinha
atribuído o traçado das primeiras figuras a um certo Fleming, mas na Fabrica
não confiou em ninguém, e a identidade do artista ou artistas que
colaboraram na sua obra tem sido objeto de grande controvérsia, que se
acentuou ante a questão de quem é mais importante, se o artista ou o
anatomista. Essa última foi uma discussão não pertinente, já que é óbvio que
as ilustrações são importantes precisamente porque juntam uma combinação de
arte e ciência, uma colaboração entre o artista e o anatomista. As figuras
da Fabrica implicam em tantos conhecimentos anatômicos que forçosamente
Vesálio devia participar na preparação dos desenhos, ainda que o grau de
refinamento e do conhecimento de técnicas novas de desenho, também para os
artistas do Renascimento, excluem também que fora o único responsável. Até
hoje é discutido se Jan Stephan van Calcar (1499-1456/50), que fez as
primeiras figuras e trabalhou no estúdio de Ticiano na vizinha Veneza, era o
artista. De qualquer maneira, havia-se encontrado uma solução na busca de
uma expressão pictórica adequada aos fenômenos naturais.
No
século XVII foram efetuadas notáveis descobertas no campo da anatomia e da
fisiologia humana. Francis Glisson (1597-1677) descreveu em detalhes o
fígado, o estômago e o intestino. Apesar de seus pontos de vista sobre a
biologia serem basicamente aristotélicos, teve também concepções modernas,
como a que se refere aos impulsos nervosos responsáveis pelo esvaziamento da
vesícula biliar.
Thomas
Wharton (1614-1673) deu um grande passo ao ultrapassar a velha e comum idéia
de que o cérebro era uma glândula que secretava muco (sem dúvida, continuou
acreditando que as lágrimas se originavam ali). Wharton descreveu as
características diferenciais das glândulas digestivas, linfáticas e sexuais.
O conduto de evacuação da glândula salivar submandibular conhece-se como
conduto de Wharton. Uma importante contribuição foi distinguir entre
glândulas de secreção interna (chamadas hoje endócrinas), cujo produto cai
no sangue, e as glândulas de secreção externa (exócrinas), que descarregam
nas cavidades.
Niels
Steenson, em 1611, estabeleceu a diferença entre esse tipo de glândula e os
nódulos linfáticos (que recebiam o nome de glândula apesar de não fazer
parte do sistema). Considerava que as lágrimas provinham do cérebro. A nova
concepção dos sistemas de transporte do organismo que se obteve graças às
contribuições de muitos investigadores ajudou a resolver os erros da
fisiologia galênica referentes à produção de sangue.
Gasparo
Aselli (1581-1626) descobriu que após a ingestão abundante de comida o
peritônio e o intestino de um cachorro se cobriam de umas fibras brancas que,
ao serem seccionadas, extravasavam um líquido esbranquiçado. Tratava-se dos
capilares quilíferos. Até a época de Harvey se pensava que a respiração
estimulava o coração para produzir espíritos vitais no ventrículo direito.
Harvey, porém, demonstrou que o sangue nos pulmões mudava de venoso para
arterial, mas desconhecia as bases desta transformação. A explicação da
função respiratória levou muitos anos, mas durante o século XVII foram dados
passos importantes para seu esclarecimento.
Robert
Hook (1635-1703) demonstrou que um animal podia sobreviver também sem
movimento pulmonar se inflássemos ar nos pulmões.
Richard
Lower (1631-1691) foi o primeiro a realizar transfusão direta de sangue,
demonstrando a diferença de cor entre o sangue arterial e o venoso, a qual
se devia ao constato com o ar dos pulmões.
John
Mayow (1640-1679) afirmou que a vermelhidão do sangue venoso se devia à
extração de alguma substância do ar. Chegou à conclusão de que o processo
respiratório não era mais que um intercâmbio de gases do ar e do sangue;
este cedia o espírito nitroaéreo e ganhava os vapores produzidos pelo sangue.
Em
1664 Thomas Willis (1621-1675) publicou De Anatomi Cerebri (ilustrado por
Christopher Wren e Richard Lower), sem dúvida o compêndio mais detalhado
sobre o sistema nervoso. Seus estudos anatômicos ligaram seu nome ao círculo
das artérias da base do cérebro, ao décimo primeiro par craniano e também a
um determinado tipo de surdez. Contudo, sua obsessão em localizar no nível
anatômico os processos mentais o fez chegar a conclusões equívocas; entre
elas, que o cérebro controlava os movimentos do coração, pulmões, estômago e
intestinos e que o corpo caloso era assunto da imaginação.
O
centro principal da cultura científica é Alexandria - como Atenas foi o
grande centro da especulação filosófica. Em Alexandria congregavam-se, e daí
partiam cientistas de todo o mundo civilizado, atingindo esta cidade seu
maior esplendor nos séculos III e II a.C. (Euclides, Arquimedes, Hiparco) e
no II século d.C. (Ptolomeu). Em Alexandria havia o famoso Museu, rico de
recursos científicos - bibliotecas, observatórios, gabinetes, jardins
botânicos, jardins zoológicos, salas anatômicas, etc. - e que teve uma longa
e gloriosa vida desde o III século a.C. até o IV século d.C.
As ciências naturais propriamente ditas, já cultivadas por Aristóteles (zoologia)
e Teofrasto (botânica), tiveram incremento na idade helenista. Primeiro, por
meio das expedições militares de Alexandre, as quais levaram ao conhecimento
da flora e da fauna das regiões novas, depois pelas grandes coleções do
Museu de Alexandria, dotada de jardins botânicos e zoológicos, como acima já
dissemos. As ciências naturais progrediram entretanto na idade helenista
particularmente como ciências auxiliares da medicina - anatomia e fisiologia
- que, por sua vez, nesta época fez grandes progressos.
Ao lado da antiga escola de Hipócrates, a qual explicava o organismo animal
mediante a relação dos quatro humores fundamentais e é chamada escola dos
dogmáticos, afirmam-se no século III a.C. em Alexandria outras escolas,
firmadas em princípios diferentes. Temos, por exemplo, a escola que tenta
explicar os fenômenos da vida pelas quatro forças fundamentais; esta escola
fez descobertas importantes sobre a circulação do sangue e sobre o sistema
nervoso. Mais importante é a escola médica chamada empírica que, em oposição
à orientação teórica e especulativa das escolas precedentes, afirma o valor
da experiência direta, da observação dos sintomas do mal e do efeito dos
remédios. Foi, inversamente, eclético com tendências dogmáticas e
hipocráticas Cláudio Galeno (131-210 d.C.), o maior médico da Antigüidade.
Natural de Pérgamo, viveu longamente em Roma na qualidade de médico imperial
e deixou numerosos escritos, que dominaram a cultura médica européia até
além da Idade Média. Tenta ele sintetizar a doutrina hipocrática dos quatro
humores com a física aristotélica dos quatro elementos e das quatro
qualidades fundamentais da matéria - o calor, o frio, a secura, a umidade.
Alicerça a medicina na fisiologia e na anatomia; afirma uma fisiologia
teleológica, finalista, para explicar a formação e o funcionamento dos
órgãos; reconhece a vis medicatrix como fator essencial da terapia, não
podendo o médico fazer outra coisa senão auxiliar esta força medicatrix.
Tendo Galeno procurado coligar os fatos particulares observados no mundo
biológico aos princípios da física e da metafísica, segue-se que foi também
um filósofo. A sua filosofia é uma síntese do platonismo, estoicismo e,
sobretudo, aristotelismo.
CAMINHOS DA
MEDICINA - A NEUROLOGIA NA ESCOLA DE ALEXANDRIA
No período pós-hipocrático, o centro médico de maior representatividade na
história da humanidade foi, sem dúvida, Alexandria. O local da cidade fora
escolhido por Alexandre Magno, no braço mais ocidental do delta do rio Nilo,
no ano de 323 a.C., no mesmo ano em que o grande conquistador morreu de
malária aos 33 anos de idade. Com a morte de Alexandre, o Império por ele
constituído foi dividido entre os seus generais, ficando o reino do Egito
com Ptolomeu I. A cidade foi construída segundo projeto de um grande
arquiteto da época, com ruas bem traçadas, perpendiculares umas às outras, e
destinava-se a ser a capital do reino e a receber os restos mortais de
Alexandre. Alexandria teve um grande desenvolvimento como centro comercial,
político, cultural e científico. Ptolomeu I e seu filho e sucessor, Ptolomeu
II, deram grande impulso às ciências, artes e letras, atraindo para
Alexandria grandes sábios, filósofos, matemáticos, físicos, médicos,
artistas, músicos e poetas. Ptolomeu I fundou o Museu de Alexandria, que
representou na civilização helenística, o mesmo papel de uma grande
universidade. Nele havia um observatório astronômico, jardim botânico,
jardim zoológico, laboratórios, salas para dissecção, salões de leitura e
uma grande biblioteca, a maior já organizada até então, com mais de 500.000
volumes (rolos), abrangendo todo o conhecimento da época. Ali se encontravam
cópias de todos os textos escritos pelos filósofos e pelos médicos gregos.
Neste ambiente, como não poderia deixar de ser, Alexandria tornou-se um
importante centro médico para onde se dirigiam os
que desejavam aprender a arte médica ou nela aperfeiçoar-se. Na escola
médica de Alexandria foram realizadas pela primeira vez dissecções públicas
de corpos humanos, as quais foram posteriormente proibidas e só foram
retomadas mil anos depois. Dentre todos os médicos que ali se destacaram,
dois nomes devem ser lembrados por seu desempenho e sua significativa
contribuição ao conhecimento do sistema nervoso. São eles, Heróphilo de
Calcedônia (aprox. 300 a.C.) e Erasístrato de Chios (aprox. 290 a.C.). O
primeiro deles filiava-se à escola de Cós e dedicou-se principalmente a
estudos anatômicos; o segundo era discípulo da escola de Cnidos e preocupou-se
antes com a função dos órgãos, sendo por isso considerado o pai da
fisiologia. Os textos originais de Heróphilo e de Erasístrato se perderam e
o que hoje sabemos de suas descobertas se deve
a relatos de outros autores, especialmente de Galeno. Heróphilo, ao
contrário de Aristóteles, considerou o cérebro como a sede da inteligência,
em lugar do coração. Descreveu a anatomia do cérebro e do cerebelo, os
ventrículos, tendo valorizado a importância destas cavidades do interior do
cérebro. No assoalho do quarto ventrículo descreveu o que ele comparou com a
forma das penas usadas para escrever em Alexandria e que recebeu em latim a
denominação de calamus scriptorius. Descreveu as meninges, às quais chamou
de chorioid pela semelhança com a membrana que envolve o feto. Deve-se a ele,
igualmente, a descrição da rete mirabilis, que teria sido encontrada no
cérebro de carneiro. A estrutura do olho tornou-se melhor conhecida após
suas dissecções e estudos sobre a anatomia do globo ocular e sua inervação.
Reconheceu que eram os nervos e não as artérias que produziam os movimentos
voluntários e estabeleceu a diferença entre os nervos motores e sensitivos,
embora ainda reinasse certa confusão entre nervos motores e tendões.
Fora do sistema nervoso, a contribuição de Heróphilo para conhecimento da
anatomia humana foi considerável, pois, segundo o depoimento de Tertuliano,
Heróphilo teria dissecado cerca de 600 corpos.
Erasístrato preocupava-se com as funções dos diferentes órgãos e aparelhos,
porém também realizou dissecções e estudos anatômicos. Rejeitava todas as
interferências ocultas ou sobrenaturais na gênese das doenças e procurava
explicá-las por causas naturais. Não compartilhava da teoria dos quatro
humores da escola hipocrática e considerava como elementos
essenciais à vida apenas o sangue e dois tipos de pneuma. Segundo sua teoria,
o ar inspirado era levado ao coração, onde se transformava em uma espécie
peculiar de pneuma – o espírito vital, o qual era conduzido pelas artérias
até ao cérebro onde se transformava em um segundo tipo de pneuma – o
espírito animal, que retornava pelos nervos a todo o corpo. Esta teoria foi
posteriormente desenvolvida por Galeno. Em relação ao sistema nervoso,
comparou o cérebro humano com o dos animais, verificando que a superfície
cerebral no homem apresenta maior complexidade e maior número de
circunvoluções, o que explicaria a superioridade da inteligência humana
sobre a dos animais. Com maior segurança do que Heróphilo, separou os nervos
motores dos nervos sensitivos e descreveu o trajeto dos nervos dos órgãos
dos sentidos. Tanto Heróphilo quanto Erasístrato foram acusados por Celsus e
por Tertuliano de terem praticado a vivissecção em
seres humanos, aproveitando-se de criminosos que haviam sido condenados à
morte. Não há comprovação de que tal tenha ocorrido, embora ambos tenham
feito vivissecção em animais. Após a queda da dinastia dos Ptolomeus, com
Cleópatra, em 30 a.C., e o domínio do Egito pelo Império Romano, o esplendor
de Alexandria entrou em lento declínio. No início do século II d.C., quando
lá estudou Galeno, ainda era uma grande metrópole, com cerca de 500.000
habitantes. Sua grande biblioteca extinguiu-se consumida pelo fogo no século
VII d.C., após a tomada de Alexandria pelos maometanos. O próximo passo no
progresso dos conhecimentos neurológicos será dado por Galeno durante o
século II d.C.
Fontes
bibliográficas
PEREIRA, M.H.R. – Estudos de história clássica. Vol. 1. Cultura grega, 5.ed.
Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1979
MAJOR, R.H. - A history of medicine. Oxford, Blackwell Scientific
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LAIGNEL-LAVASTINE (Org.) Histoire de la médecine, de la pharmacie, de l'art
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DOBSON, J.F. – Herophilus de Alexandria. Proc. Royal Soc. Med.. March 18,
1925, p. 19-32.
DOBSON, J.F. – Erasistratus. Proc. Royal Soc. Med. Feb. 16, 1927, p.
825-832. CANFORA, L. A biblioteca desaparecida (trad.). Histórias da
biblioteca de Alexandria. São Paulo, Ed. Schwarcz Ltda., 1989
Publicado no Boletim da Academia Brasileira de Neurologia, n. 2/2002
Joffre M. de Rezende
Professor Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás.
Membro das Sociedades Brasileira e Internacional de História da Medicina
UM BREVE RESUMO HISTÓRICO:
280 A .C. : Cérebro
O museu de Alexandria foi o local pioneiro sobre anatomia (Herófilo) e por
seu sucessor, Erasístrato. Herófilo dividiu os nervos em sensoriais e
motores (movimentos). Descreveu o fígado e o baço corretamente, a retina do
olho e o duodeno. Percebeu que as artérias pulsavam e acreditava que
transportasse sangue e não ar. Erasístrato percebeu a dstinção entre cérebro
e cerebelo; notou que os humanos tinham mais convoluções.
50 D.C. : Farmacologia
O médico greg Pedanius servia aos exércitos romanos e estudou plantas em
vasta região do Mediterrâneo. Livro: De Materia Medica descreveu
aproximadamente 600 plantas e quase mil drogas.
62 D.C. : Herão , de Alexandria
Ensinou Física na Escola de Alexandria; produziu tratados de mecânica, ótica,
pneumática; credita-se a ele a primeira máquina vapor, que produzia
movimento circular num globo. Vislumbrou máquinas para abrir e fechar portas
e criou um carrosel com carros mecânicos. Suas invencões serviram de
entretenimento, mas não produziu máquinas industriais.
O Museu de Alexandria possuía uma ótima escola de Medicina, fundada no
século III a.C., por Herófilo, e nessa escola podia-se dissecar cadáveres.
Algumas partes do corpo ainda recebem o seu nome: uma cavidade do coração é
chamada de “calamus Herophili”. Um de seus seguidores, Erasístrato, foi
autor de grande número de livros, que tratavam de anatomia, febres, gota,
hidropisia, bem como de higine. Foi o primeiro a elaborar experiências para
comprovar o desgaste físico e fazer autópsia para avaliar a causa da morte.
Estudou a respiração e separou os nervos sensoriais dos motores e reconheceu
a função de bombeamento do coração. 180 A .C.: Galeno (131 a 201 D.C.)
Aos 16 anos resolveu estudar Medicina e compilou muitos livros médicos;
visitou inúmeras cidades, inclusive Alexandria, para completar estudos e aos
28 anos voltou para Pérgamo, como médico de gladiadores, onde dissecava
animais. Fez um bom trabalho sobre músculos, identificando vários desses
grupos. Surgia o primeiro “médico de esportes”; por 4 anos cuidou das
cirurgias e aspectos alimentares dos gladiadores. Não concordava com algumas
idéias de Aristóteles e Erasístrato (principalmente a que se devia
estrangular o animal antes de dissecar, porque as artérias ficavam drenadas
de sangue, induzindo erros de interpretação). Publicou mais de 500 tratados
sobre Medicina. O primeiro texto em Fisiologia tornou-o uma autoridade e
esse texto foi usado por mais de 1.300 anos. Com o surgimento da imprensa
sua obra foi editada pela primeira vez em 1473 e por volta de 1.600 ainda
existiam 600 cópias. De Motu Musculorum (sobre o movimento dos músculos)
mostra sua paixão pelos mecanismos envolvidos no movimento. Descobriu a
diferença entre músculos agonistas e antagonistas e entre nervos sensores e
motores. Dissecou cães, porcos e macacos e encorajou seus discípulos a
viajar até Alexandria, onde existiam esqueletos humanos disponíveis para
estudos científicos. Seu principal erro: admitir que a principal função da
respiração era resfriar o sangue e o próprio coração.

A
finalidade da anatomia é indagar a estrutura do corpo são e normal. Foi o
Renascimento italiano que comprovadamente iniciou o estudo do corpo humano.
Na verdade, sob a influência do ideal artístico da Antiguidade greco-romana,
nos séculos XV e XVI, começaram a ser estudados os músculos e o esqueleto.
Os maiores estudiosos da época foram Leonardo da Vinci, André Vesálio, os
anatomistas da escola de Pádua (Falópio, Fabrizio, Casséiio), de Bolonha (Aranzio,
Varólio) e de Roma (Eustáquio).
Da anatomia macroscópica, isto é, a anatomia perceptível a olho nu, passou-se
à anatomia microscópica, que estuda a estrutura íntima dos tecidos e que
exige o uso do microscópio. O iniciador da anatomia microscópica foi um
diletante de Delft (Holanda), Antônio van Leeuwenhoeck, um estranho tipo de
apaixonada "natura curiosus" ; mas o primeiro grande representante desta
ciência foi Marcelo Malpighi, o descobridor do glomérulo renal, que
viveu e ensinou em Bolonha. A anatomia microscópica constitui a histologia,
ou ciência dos tecidos, enquanto a anatomia macroscopica constitui aquela
que se chama, geralmente, "anatomia" sem outros adjetivos.
O desenvolvimento do organismo antes do nascimento é estudado por uma
ciência particular: a embriologia.
A ciência, para adquirir o conhecimento da forma e da estrutura do corpo
humano, segue duas vias:
1) A análise, que, por sua vez, se realiza por dois modos
distintos: o teórico e o prático. A teoria estuda a estrutura começando do
elemento fundamental, a célula, para passar aos tecidos e destes aos órgãos,
que descreve sistematicamente, caminhando, portanto, do simples ao complexo,
do interno para o externo. A prática, ao contrário, segue o processo inverso,
do externo para o interno; ela observa a plástica do corpo para chegar aos
constituintes, descendo, pouco a pouco, do geral ao particular .
2) A síntese estuda as diversas partes do corpo, não de acordo
com a sua estrutura, mas nas suas relações recíprocas e nas funções que
tecidos e órgãos diversos podem realizar em colaboração. Um problema, por
exemplo, estudado sinteticamente, é aquele da contração muscular;
observar-se-á se um músculo se contrai por si só ou junto com outros
músculos e quais são os músculos que determinam o movimento contrário. Todos
os músculos têm necessidade de nutrimento e de oxigênio, que são trazidos a
eles pelo sangue arterial. O sangue venoso, contrariamente, leva embora dos
músculos os produtos de rejeição. Para o seu funcionamento, os músculos
devem receber impulsos do sistema nervoso. Nasceu, desse modo, a fisiologia,
ciência do funcionamento, indissoluvelmente ligada à anatomia, ciência da
forma. Por essa razão a anatomia e a fisiologia serão por nós consideradas
paralelamente.
A anatomia está cheia de termos; o nosso corpo é como uma carta geográfica,
na qual toda e qualquer parte, por mais pequena que seja, tem a sua
denominação. Todo termo tem, geralmente, a necessária justificação. Por
exemplo, o "músculo peitoral" é assim chamado porque se acha no peito; o "músculo
grande denteado" deve, ao contrário, o nome à sua forma, porque é provido de
numerosos dentes; o "músculo adutor" indica, diferentemente, qual é a sua
função (aduz, isto é, traz para dentro). É quase impossível conservar de
memória todos esses nomes, e mesmo os médicos são obrigados, muitas vezes, a
recorrer aos seus livros de anatomia. O importante é poder compreender o
corpo humano no seu complexo, que é diverso da simples soma das partes e bem
mais vasto do que elas. O homem descrito pela anatomia é uma pura abstração.
Todo indivíduo é diferente do outro e constitui um exemplar único.
O homem respira. O ar é absolutamente indispensável para viver. Por meio dos
pulmões o oxigênio passa do ar ao sangue e chega aos tecidos nos quais têm
lugar as oxidações (combustões): o ar expirado contém anidrido carbônico e
va- por de água, substâncias químicas. Eis que vem em nosso auxílio a
química, que, em estreita relação com a fisiologia, da qual constitui mesmo,
atualmente, o pressuposto fundamental, nos ajudará a conhecer melhor e mais
a fundo como funciona o nosso organismo. É a bioquímica, base da moderna
fisiologia.
Um outro papel não menos importante cabe à física. Sem o conhecimento das
leis físicas relativas à eletricidade, não seria possível a fisiologia do
sistema nervoso. O próprio princípio físico da transformação da energia, que
seria depois mais claramente estudado na física, foi analisado por um médico,
o Doutor Meyer, no longínquo ano de 1840. Teve ele ocasião de
observar que, nos climas quentes, o sangue venoso era tão claro que parecia
arterial. Desta observação tirou importantes conclusões relativas ao vínculo
que liga o calor animal à quantidade de trabalho produzido. Aplicada ao
organismo vivo a lei da conservação da energia, a energia recebida em
potencial através dos alimentos ingeridos pelo homem é posta em liberdade
sob a forma de calor, e graças a reações químicas muito complexas que se dão
em nosso organismo.
Uma nova ciência de base é a química-física. Graças a esta ciência
compreendeu-se o princípio: "Corpora non agunt nisi soluta", isto é, que os
produtos minerais chegam às células do organismo, somente se fizerem parte
integrante de combinações orgânicas e sob a forma de sais dissolvidos. A
química-física nos ensina, na verdade, que as soluções muito diluídas
dissociam-se eletroliticamente, isto é, dividem-se em átomos ou grupo de
átomos, os iônios, dotados de carga elétrica positiva ou negativa. Os
fenômenos elétricos aparecem, assim, ligados intimamente a toda manifestação
vital.
O corpo humano foi muitas vezes comparado a uma máquina. O combustível é
trazido a esta e queima produzindo calor. É assim libertada uma força. A
fumaça e os resíduos são eliminados. Os alimentos aparecem, portanto, não
somente como combustíveis, mas também - e aqui se vê a diferença entre a
máquina humana e as máquinas industriais - como substâncias que servem para
a formação da materia viva.
A um certo ponto, porém, a explicação científica pára. A ciência não pode ir
além de certos limites. Depois de ter alcançado uma determinada profundidade
pondo em relação os fenômenos da vida com as leis físicas e químicas, a
análise científica esbarra contra barreiras intransponíveis. A ciência pode
saber quais as condições necessárias para que o coração bata, pode
determinar o ritmo dos batimentos do coração, a força que eles desenvolvem,
mas o próprio fato de que o coração bata, de que o músculo se contraia,
fogem às explicações mecanicistas.
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